Imagens em cena: lugares de cultura, memória e sociabilidade

 

Especialização em Conservação de Patrimônio Cultural em Centros Urbanos
Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Brasil

Ana Luiza Oliveira, Flávia Haase, Glenda Dimuro, Marina Frydberg
 
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Observando a relevância do centro como um espaço de encontro na cidade e tendo em vista que os fenômenos sociais além de ocorrerem no espaço, o caracterizam e são por ele influenciados, tornam-se significativos os estudos de tais espaços. O espaço é carregado de significados que são constantemente atribuídos a ele através da vivência das pessoas. Lynch defende que "se o ambiente for visivelmente organizado e nitidamente identificado, o cidadão poderá impregná-lo de seus próprios significados e relações. Então se tornará um verdadeiro lugar, notável e inconfundível” (1997:102). Os espaços quando dotados de significados são chamados de lugares. Segundo Argan “são os homens que atribuem valor às pedras. (...) Devemos, portanto, levar em conta não o valor em si, mas a atribuição de valor, não importa quem faça e a que título seja feita. É preciso prescindir, portanto, do que parece óbvio e ver como ocorre, em todos os níveis culturais, a atribuição de valores aos dados visuais da cidade” (1998:228).

O espaço é algo concebido, pensado, formalizado, percebido, significado e experenciado por diferentes construções sociais. DaMatta (1987) argumenta que a sociedade brasileira se singulariza pelo fato de ter muitos espaços e muitas temporalidades que convivem simultaneamente. Isso pode ser visto no centro da cidade, quando nos deparamos com diferentes grupos ocupando os mesmos espaços ao mesmo tempo ou em tempos diversos com atividades variadas, cada um imprimindo neste espaço um significado que lhe é próprio e que muitas vezes só faz sentido ao grupo que pratica a ação.

Nosso objetivo é explorar a instalação da CINEMATECA do Rio Grande do Sul, no prédio do antigo Cinema Capitólio, como deflagrador de um processo de reabilitação do entorno, com a adequação da área ao uso previsto em termos de infra-estrutura e com a implementação de ações que promovam o valor de uso daquela região, ao mesmo tempo incentivando o uso residencial e ainda predominante. Pretendemos usar o tema do cinema para estabelecer outras ações, com a comunidade local, os moradores da praça, os comerciantes e outros usuários e para propor intervenções físicas de qualificação da paisagem urbana.

O prédio do Cinema Capitólio, propriedade do Município, tombado como Patrimônio Cultural da cidade e abandonado desde 1994, está atualmente em obras de recuperação para instalação da CINEMATECA. Estando situado na esquina da Rua Demétrio Ribeiro com a Avenida Borges de Medeiros, foi objeto de convênio entre a Coordenação de Cinema da Secretaria Municipal da Cultura e a FUNDACINE para execução da obra de restauração com recursos da Petrobrás.

A região estudada trata-se das áreas junto às ruas que faziam parte do traçado registrado nos primeiros mapas da cidade, próximos ao curso do Riacho. A recuperação da edificação que é reconhecido como patrimônio cultural da cidade, um dos últimos remanescentes dos prédios construídos como cinema de rua e que manterá o uso semelhante ao original, implica uma adequação do entorno. Já a praça e seus moradores, rodeada de prédios construídos em diversas épocas, e a instalação, já tradicional embora pouco valorizada dos antiquários na Rua Fernando Machado, são outros elementos identificados como espaços e atividades significativas e potenciais ainda predominantes.

Apesar da área delimitada para estudo ser mais abrangente, nossa análise concentrou-se na Avenida Borges de Medeiros e seu lado leste, por que ali foi identificado o maior potencial para intervenções que venham a atingir os objetivos de requalificação da área e porque o lado oeste tem características consolidadas como zona residencial que se quer preservar com este uso. Esta, enquanto fonte de estudo, foi delimitada como: Avenida Borges de Medeiros da esquina com a Cel. Fernando Machado até o Largo dos Açorianos; a Rua Fernando Machado da sua intersecção com a Avenida Borges de Medeiros até seu fim na confluência da Rua André da Rocha e General Lima e Silva; a Rua Demétrio Ribeiro a partir das edificações que possuem relação imediata com o prédio do Cinema Capitólio até o fim da rua na confluência da Rua José do Patrocínio com a Cel. Genuíno; a Rua Marechal Floriano Peixoto da Rua Fernando Machado até a Demétrio Ribeiro; Rua Coronel Genuíno da Rua Fernando Machado até Largo dos Açorianos; além das praças Daltro Filho e Marquesa de Sévigné.

Para compreensão da área fez-se necessário o estudo dos aspectos históricos e de contextualização do entorno do prédio do Cinema Capitólio. Levantamos através de pesquisas bibliográficas, iconográficas e entrevistas o desenvolvimento urbano, histórico, social e econômico da área, relacionado-a com a história da cidade. Realizamos pesquisa sobre os aspectos espaciais da área através da análise dos aspectos funcionais e morfológicas, através da pesquisa em órgãos públicos e levantamento in-loco. Identificamos as características sociais e econômicas da área através de observações sistemáticas na região e entrevistas com agentes importantes. E empreendemos uma análise dos aspectos institucionais e administrativos com a identificação de legislações relevantes para o estudo e de planos, projetos e programas idealizados por órgãos públicos ou privados na área, através de pesquisas em órgãos públicos e entrevistas.

 
LYNCH, Kevin. A Imagem da cidade.  São Paulo: Martins Fontes, 1997.
ARGAN, Giulio Carlo. História da Arte como História da Cidade. São Paulo: Martins Fostes, 1998.
DAMATTA, Roberto. A Casa e a Rua. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987.